Publicado por: Weskley Cotrim | 22/06/2008

Combater a pobreza ou combater o casamento gay?

Por que o crente é tão obcecado com questões ligadas à moralidade sexual? Há tantas coisas relevantes que poderiam ser usadas como bandeira da cristandade, há tantas questões urgentes — combate à pobreza, defesa do meio-ambiente etc — , e os cristãos, em geral, ficam o tempo todo combatendo o casamento gay, o aborto, o divórcio. De onde vem essa obsessão?

Não só no Brasil, mas entre os cristãos em todo o mundo, esse é um debate importante. Jim Wallis, um ativista cristão entrevistado na edição de maio da Christianity Today, garante que as questões sociais são muito mais importantes do que as preocupações provincianas da maioria da cristandade. Não há como comparar essa idéia fixa de se ocupar da moralidade sexual com a seriedade do combate à pobreza. A pobreza está para o nosso século como a escravidão para o século 18, sustenta Wallis.

A tese é sedutora. Especialmente porque já chega com a garantia da aprovação geral. Quem é contra o combate à pobreza? Num campus universitário não é difícil imaginar qual bandeira teria trânsito mais fácil.

Contudo, há um problema. Paulo escreveu a Timóteo que a igreja é a trincheira da verdade (1Tm 3.15). Cabe aos cristãos a defesa firme daqueles valores que representam o evangelho e que estão sendo assaltados pela cultura secular. Para não se conformar à pressão cultural do seu tempo, isto é, do seu século, a igreja deve afirmar com maior veemência justamente aqueles princípios que estão sendo negados pelo mundo. Isso corresponde ao que alguns pensadores cristãos chamam de *mandato cultural* da igreja.

É óbvio que os cristãos devem ter uma preocupação social. Essa é uma verdade trivial que não tem a menor necessidade de ser enunciada. Mas não é neste ponto que a igreja sofre um ataque virulento (talvez o mais grave da sua história no campo das idéias). Na questão da pobreza, o mundo e a igreja estão de acordo e não há disputa alguma. A esse respeito não há bandeira a se levantar e o que se deve fazer é arregaçar as mangas. Agora, no que diz respeito aos valores da família, da moralidade sexual e da defesa da vida, é gravíssima a pressão cultural que sofremos e é aqui que devemos centrar as nossas forças intelectuais.

A tarefa evidentemente não é fácil, justamente porque a impopularidade desses valores é crescente. Quem ousar sair em defesa dos princípios judaico-cristãos em relação ao casamento e ao aborto, por exemplo, terá de conviver com rótulos que preferimos evitar. Não há nada mais desagradável para um ser pensante do que ser taxado de fundamentalista ou reacionário.

Apesar disso, não será essa pressão que nos autorizará a focar nossas energias para defender apenas aquelas teses que são simpáticas aos olhos do século atual. A defesa das nossas convicções tem um preço — por vezes muito alto. Conta a história que, no século 16, Henrique VIII — para poder divorciar-se em paz e se casar com Ana Bolena — resolveu tornar-se o chefe da igreja da Inglaterra. Encontrou, porém, firme oposição do seu *Lord Chanceler*, o católico Thomas More. More foi preso e corria risco de vida por sua obstinação, razão por que sua filha resolveu visitá-lo para demovê-lo. Após alertá-lo para o fato de que suas idéias poderiam literalmente lhe valer a cabeça, fez questão de lembrá-lo que muitos nobres, ilustres como ele, haviam renunciado às suas convicções e aceitado a posição do rei. Thomas More foi lacônico: “Não carrego minha consciência à custa dos outros”.

A cristandade vive um momento crítico, rigorosamente uma encruzilhada. Resta saber se nos acomodaremos àquilo que o mundo pensa ser relevante, ou se aceitaremos a missão que Paulo passou ao seu dileto discípulo: de posicionar firmemente a igreja como a última barricada da verdade.

Escrito por João Heliofar de Jesus Villar*, 45, procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico.
Fonte: Ultimato


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